sábado, 31 de outubro de 2009

Transfiguração

Respiração.

fagulha, centelha.

por ele, um presente.

anseio? Pretensão?

aquiesce ou esquece a solicitação?

acede ou repele o rogo sem paixão?

decidiu-se,

aquiesce.

Transfiguração.

o vento levaria a flor ao longe

quem a poderia ler?

como livro de poesia,

letra após letra..

Entusiasmar..!

a companhia do vazio lhe fazia bem

e ninguém passava, nem o tempo..

Respiração.

A brisa chega áspera,

junto com a areia e o sal.

é a presença dela.

Olha o Agora!

a claridade é penumbra,

até a lua,

descansa no leito de suas nuvens..

Transfiguração.

para ele tudo é sonho.

real durante uma piscadela.

a ponto de se tornar imaginário,

falta um superego,

que nem precisa ser super.

Basta ser dela.

Respiração.

ele busca ser estrela.

procura os ideais.

mas cadê o pulso forte?

ou a personalidade sagaz?

diante do abismo, perde a fala.

Normal.

Transfiguração.

a lua desenha o caminho,

o vento sob os cabelos,

os corpos balançam

e chocam-se ombro-a-ombro

ele circunda,

mas não abraça.

o mar não trará mais surpresas

Respiração.

é tudo o que ele pensa,

expira, inspira.

nada mais muda.

Busca definir o que o move,

o que o guia, Imagens.

palavras que faltaram, não mais que de repente..

- O que é aquilo?

- Nada, uma estrela cadente.

[...]

Ânimo de Prata

E se esvai,

quando o rei vem pra tomar lugar,

e dá fim,

na noite inteira que clareou.

e apaga,

a trilha feita no mar.

e retorna,

pra acalentar a aurora..

Para Luana

Se todo sussurro ao pé do ouvido,

carregasse consigo a tua voz,

até em meu último suspiro

aquietaria-me

e daria o silêncio,

pra ouvir seu sussurro passar.

Para Maria

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

..entre crepúsculos..


Ainda no silêncio, escuta o que querem te dizer. Ainda clareando, acompanha quem quer te proteger. Ela é o perfeito amor, Quintana já anunciava. Mas ele não era preciso, conciso, faltava o carnaval que Vinícius ansiava. De súbito, a prosa se desenha diante destes versos, versos traiçoeiros, que deixam as letras tropeçarem, enquanto a ponta da caneta sente o que vai ser escrito. Ela vibra, treme, solta a tinta azul que contorna cada nuvem, ainda antes do nascer do sol. Do outro lado, ele ainda dorme, se tens um bom sono, decerto sonha com ela, e com elementos que o fazem sentir bem... O vento, seu fiel mensageiro, uma rede, e até com seus malabares. Mas ela, ele não consegue malabarizar. Se ele é A, ela é B. Ele é vermelho, ela é branco. Ele é alternativo, ela é axé. Ele é prosa, ela poesia. Tudo isso. Uma só distância. Badulaques, contos, charges. Dentre todas as correntes linguísticas o que é que ele expressa? Fica na passividade, deixa tudo levar.. Outrora tem certa pressa. Mas antes de sonhar, ele manda aquele bilhete, ainda rabiscado, mas escrito com afago e pensa venturoso:

- Ao acordar, de mim ela vai lembrar..

Mar Castro


Caetano me disse: "A Bahia é que é o cais". E nesse cais já vi de tudo passar. Dediquei-me a horas infindas numa única missão: Ver quem gostava do mar. Ana foi a primeira. Como paixão sublime e a primeira vista, numa maré repentina, o mar ficou cheio de si. Onde já se viu o mar apaixonado por uma menina? Ana e o Mar não ficariam juntos. É onde entra um tal de Anitelli, mas isso já é outra história. Foi então a vez de Fernando. Um boêmio português, que não cansou de rezar e chorar no mar. Hoje não sabemos quanto de seu sal são lagrimas de Portugal. Dizem que o mesmo não teme nada, já passou alem da dor e cruzou o mar. Mas de uma coisa tem-se certeza, Fernando não podia amá-lo. Tudo fica confuso para a imensidão azul, quando Fernando e Ana se conhecem. Começam a ir visitá-lo com frequência e Fernando se apaixona. Dentre todas as suas declarações, costumava sussurrar no ouvido de Ana e dizer: "quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor". Fernando era valente, movimentava o amor e enfrentava o mal. Não tinha como a Brisa do Mar, competir com um sussurro desses. Ah Mar de tantos amores, estava ansioso pelo dia de ver Diego, que não conhecia o mar. Seu pai, Galeano, prometeu que descobririam o mar, mas foi tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E então, segurando a mão de Galeano, tremendo e gaguejando disse: "Pai, me ajuda a olhar!". O mar não aceitou o amor dividido. Assim, fui aprendendo muito sobre o amor ao mar. Havia também, e não posso me esquecer, Arnaldo. Ele nunca teve paixão pelo mar, ainda assim, todos os dias eu o via do cais, com os pés na areia, cantando melodias de sereia. Eis parte onde o amor reside em Arnaldo, sua paixão era catar conchas. E fazer um colar pra outra paixão, Rosa. Ainda assim, nenhuma relação com o mar. Foi quando Francisco, grande confidente da Brisa do mar, falou sobre as juras, promessas e canções de um amigo Marcelo. Mas era apenas o penar, por perder sua senhora, ele nem estava lá, mas viu. Não deu tempo nem do mar amargurar, Carlinhos já estava de canto pro mar, por sorte, descobriu-se que Carlinhos cantava também pra Lua, pra Terra, pro Vento.. Era um Fanfarrão. Nesse Mar de amores, ganhei meu presente. Lá estava ela deitada na rede, a admirar o mar.. A água beirou o cais, e a brisa soprou no meu corpo. Estava claro, era minha vez. Andei com ela até a Beira-Mar, e apanhei um Taxi, pra estação Lunar.

A Chave

Em nossa infância, às vezes associamos as dificuldades de uma maneira lúdica. Monstros, fantasmas e bichos de todos os tipos. Aos poucos, vamos crescendo e perdendo o medo de nossas fantasias. Outros propósitos passam a ser almejados. A busca da felicidade, do prazer, da satisfação pessoal. Entretanto, nunca fui de abandonar as minhas formas lúdicas e criei um objeto que sempre me traria as coisas que eu precisasse. Era nada menos que uma chave. Com ela, e poderia soltar meus sonhos e aprisionar meus problemas. Teoricamente, seria tudo muito fácil e lindo. Mas na vida, nunca é tão fácil encontrar a chave da felicidade. Ela pode ter uma combinação diferente pra cada problema. E quase sempre, não pode fazer muita coisa sozinha. Precisamos também da chave da alegria, do amor e do humor.
Decidi ser o chaveiro da vida de muitas pessoas. Criar chaves e ter o poder de incitar do ódio ao amor, do rancor à felicidade. Era uma missão difícil. O que me motivava era a vontade de abrir risos mundo a fora. Por onde eu ia, lá estavam as chaves. Aos montes. Às pencas. Deixei de ser uma pessoa fechada. Abrir portas, portões e cadeados me revitalizaram. Não precisei de muitas chaves pra ficar completo como hoje. Elas serviram sim, para ajudar o próximo. Mas apenas uma chave me abriu. Lorena, a minha chave-mestra.

Os Graus de uma Amizade

Quando dizem que o amor cego, devem imaginar ao menos, a miopia de uma amizade. Ás vezes elas não se fazem por valer. Baseiam-se na falha capacidade de compreensão do homem. No perdão e no jargão, alguém tem que ceder. Já outras, são regadas pela cegueira do amor. E nesse caso não tem cura. Não há óculos, nem lente, nem contato. Só amizade. Desfaz-se toda uma sina, na disfunção das retinas. Que teimam em não se encontrar.
Cerram-se os olhos com cataratas. Forma-se o rio de lágrimas. Vamos navegar ainda hoje. Entra na minha nau e me faz companhia, noite a noite, não adia. Torne um pouco mais quente, a imensidão azul. Preciso de um sentimento vermelho. Quando eu chegar ao mar, com você, não vou saber olhar a Lua se pôr, ou o Sol nascer. Completamente cego. Não saberei aonde ir, se você não apontar a direção.
Procurei durante tempos tratamento. Vi você em outras pessoas. Mas apesar dos meus olhos me enganarem, meus sentidos e sentimentos continuavam aguçados. Os pés gelam na ausência, as pernas tremem na presença, vou pular uma parte e chegar à barriga que embrulha quando discutimos, na garganta que seca quando não nos vemos, os braços que passam horas ansiando o seu abraço, as mãos que suam com expectativas e por fim a cabeça. Bem.. A cabeça.. Você não sai de dentro dela.
Sou altamente dependente de você. E tudo que tenho, é essa amizade de um grau único. Esse é meu grau de amizade por você. A cegueira. Te amo.



Para Maria, 19 de Julho de 2009